Forma

O sonho concretizado

Que aconteceu sem saberes

No teu peito consolado

Ao sabor das minhas mãos

Que lhe ganharam a forma

Ou a forma que lhes dão

Foi na forma que querias

Por isso mesmo dizias

É da forma que quiseres

Porque quero o que tu queres

Se o teu querer me quiser

Mesmo que venha a doer

pedro pêssego coração

Aldeia - ruas

Correria

Passavas à minha porta

Só para ver se me vias

Mas ias sempre a correr

Da minha vista fugias

Mas quanto mais tu corrias

Mais a vista te alcançava

Sabias como gostava

E o que dava para as ver

Como dois adolescentes

Sabíamos como sonhavas

Com o coração aos saltos

No côncavo das minhas mãos

E eu em voos mais altos

Depois voaste comigo

Disseste amar o amor

E que nada ia sobrar

Mas um dia o dissabor

E decidiste mudar

Hoje não queres que apareça

Mas eu acho que te mentes

Atas o tempo comigo

Com o nosso desejo antigo

E por incrível que pareça

Logo que passas por mim

Desatas sempre a correr

Mas voltas sempre a passar

 

 

Céu aberto

Lembro o teu olhar de dar

O teu corpo desnudado

Quase tudo quando dado

Desfrutado quando tudo

Dentro de ti abraçado 

Apartava o teu gemido

Eras o meu céu aberto

Nesse tempo com sentido

Onde a festa festejava

O beijo na tua testa

Que a minha festa te dava

Na festa de estar contigo

O teu corpo acomodado

No lençol da minha pele

Fica como abandonado

Estou a olhar para ti

Tu para mim sem me ver

Com o olhar desvendado

A destilar o teu mel

Dizes querer dar-me tudo

E dás-me o mundo a beber 

fotografia-2

fotografia-1

Eco

Subir até ao alto

Da minha cerejeira preferida

Para colher teus brincos

De carmim

E descer teus socalcos

Verde a verde até ao fundo

Fazer crescer teu fruto

Qual fermento

Entrar em ti corpo inteiro

Cavalo sedento

Até ao espasmo branco

Do granito

Sentir a terra toda

Em minhas mãos

Toda a luz do mundo

Em teu olhar

Voltar a percorrer-te

Palmo a palmo

Fazer e desfazer

O teu sorriso

Teus lábios

Língua ardente

Mãos perdidas

Invadir e repartir

O espanto e o grito

Até que o eco

Em mim rebente

 

 

Garidez

Nesta baía da ilha

Onde o basalto adormece

O encontro é maravilha

Se a amizade acontece

E no mar da ferraria

Quando a maré aquece

O brilho do nosso olhar

Focado no horizonte

Esperando o sol poente

No cimo do alto monte

Onde o milhafre plana

Tal como eu gostaria

Descobrimos os mosteiros

Como sonhos derradeiros

Das férias da Garidez

E antes de irem p’rá cama 

Fomos beber aguardente

Mas o vento grita à gente

Que vão voltar outra vez !

img_20160925_195137
img_20160925_191300

Chuva

Sorri à chuva

Cheira o molhado

Sente o perfume

Agarra o vento

Busca a aventura

Veste a emoção

Vive o momento

Lança a ternura

Dá a tua mão

Solta o desejo

Olha nos olhos

Chora a alegria

Bebe um bom vinho

Deita na cama

Se a noite é fria

Acende o lume

Dá mais um beijo

Ama no chão

Porque só vive

Quem ama

Pinheiro

Por ela
A claridade entre os meus dedos
Por ela
A janela aberta sobre o verde
Por ela
O arrepio do nevoeiro sobre o rio
Por ela
O canto dos pássaros na sombra
Por ela
A música que não sei mas que gostava
Por ela
A paz que não tinha mas buscava

No meio do ribeiro parado
Mesmo em frente à minha aldeia
A tua presença mágica
Parte de mim pela várzea
Subindo pelos socalcos
Passando pela Portela
Até aos montes mais altos
Passa até pro outro lado
E a água que me rodeia
Correndo de pedra em pedra
Vai cantando e vai dizendo…
Tudo isto existe… Por ela


Aldeia - Pinheiro

Pedra na Mão
Rio Paiva

Quantos dias no meu rio
Quantas trutas apanhei
Quantas lágrimas lambi
Quantos calhaus levantei
Sempre à procura de ti
Todos os anos a ver
O Paiva a correr na dorna
Neste não deu logo torna
Procurando a tua forma
Que um dia terá que ser
Sabia que também querias
E correste até não crer
Que alguma vez me encontravas
Mas sabe-se lá que caminhos
Que colisões, que tangentes
Em quantos ninhos dormiste
E quantos sonhos pendentes
Que paisagens submersas
viste tu quando sem pressas
No fundo da mesma água
Que quando calma te acalma
E te deu a perfeição
Dessa forma sensual
De qualquer forma perdida
Mas finalmente encontrada
Na minha mão acolhida
A minha pedra rolada

Casa da aldeia

Tu és a casa
Da aldeia
A lareira acesa
O lamento da chama
Que chama p`ra cama
A toalha de linho
És o pão sobre a mesa
O presunto e o mel
O aconchego do vinho
Uva moscatel
A aguardente da gente
És o Poço Mourinho
És o rio no Verão
Onde riu e mergulho
És a luta da truta
A fruta madura
És a Serra da Arada
A pedra parida
Vila Seca molhada
A flor preferida
És o cheiro a caruma
A pinha e ao lume
És a minha ternura
És o meu perfume
És a minha vida


Aldeia casa redonda

Garça

Quando te penso e te vejo no desejo da memória descubro
que o lenço de ler a sina já contava a minha história
Lembro o voo no olhar e a graça que a Garça teve
no seu traço leve e torpo ao desenhar voando teu corpo