Garidez

Nesta baía da ilha

Onde o basalto adormece

O encontro é maravilha

Se a amizade acontece

E no mar da ferraria

Quando a maré aquece

O brilho do nosso olhar

Focado no horizonte

Esperando o sol poente

No cimo do alto monte

Onde o milhafre plana

Tal como eu gostaria

Descobrimos os mosteiros

Como sonhos derradeiros

Das férias da Garidez

E antes de irem p’rá cama 

Fomos beber aguardente

Mas o vento grita à gente

Que vão voltar outra vez !

img_20160925_195137
img_20160925_191300

Chuva

Sorri à chuva

Cheira o molhado

Sente o perfume

Agarra o vento

Busca a aventura

Veste a emoção

Vive o momento

Lança a ternura

Dá a tua mão

Solta o desejo

Olha nos olhos

Chora a alegria

Bebe um bom vinho

Deita na cama

Se a noite é fria

Acende o lume

Dá mais um beijo

Ama no chão

Porque só vive

Quem ama

Pinheiro

Por ela
A claridade entre os meus dedos
Por ela
A janela aberta sobre o verde
Por ela
O arrepio do nevoeiro sobre o rio
Por ela
O canto dos pássaros na sombra
Por ela
A música que não sei mas que gostava
Por ela
A paz que não tinha mas buscava

No meio do ribeiro parado
Mesmo em frente à minha aldeia
A tua presença mágica
Parte de mim pela várzea
Subindo pelos socalcos
Passando pela Portela
Até aos montes mais altos
Passa até pro outro lado
E a água que me rodeia
Correndo de pedra em pedra
Vai cantando e vai dizendo…
Tudo isto existe… Por ela


Aldeia - Pinheiro

Pedra na Mão
Rio Paiva

Quantos dias no meu rio
Quantas trutas apanhei
Quantas lágrimas lambi
Quantos calhaus levantei
Sempre à procura de ti
Todos os anos a ver
O Paiva a correr na dorna
Neste não deu logo torna
Procurando a tua forma
Que um dia terá que ser
Sabia que também querias
E correste até não crer
Que alguma vez me encontravas
Mas sabe-se lá que caminhos
Que colisões, que tangentes
Em quantos ninhos dormiste
E quantos sonhos pendentes
Que paisagens submersas
viste tu quando sem pressas
No fundo da mesma água
Que quando calma te acalma
E te deu a perfeição
Dessa forma sensual
De qualquer forma perdida
Mas finalmente encontrada
Na minha mão acolhida
A minha pedra rolada

Casa da aldeia

Tu és a casa
Da aldeia
A lareira acesa
O lamento da chama
Que chama p`ra cama
A toalha de linho
És o pão sobre a mesa
O presunto e o mel
O aconchego do vinho
Uva moscatel
A aguardente da gente
És o Poço Mourinho
És o rio no Verão
Onde riu e mergulho
És a luta da truta
A fruta madura
És a Serra da Arada
A pedra parida
Vila Seca molhada
A flor preferida
És o cheiro a caruma
A pinha e ao lume
És a minha ternura
És o meu perfume
És a minha vida


Aldeia casa redonda

Garça

Quando te penso e te vejo no desejo da memória descubro
que o lenço de ler a sina já contava a minha história
Lembro o voo no olhar e a graça que a Garça teve
no seu traço leve e torpo ao desenhar voando teu corpo

Uvas

Uvas

Olho e colho as uvas no caminho
E ao encontrar o teu olhar
É como fazer o vinho

Casal Novo

No começo da subida
Parei à sombra no poço
Junto à cabaça caída
A preparar o meu esforço
Ao trincar o chocolate
Que levei p’rá caminhada
Ouvi os pássaros cantar
E depois da debandada
Subi em bicos de lacre
A caminho do casal
O burro até teve graça
Pois estava mesmo ao lado
Da charrua abandonada
Para mostrar estar cansado
No planalto das vinhas
Com o pau de marmeleiro
Vejo a Arruda aqui de fronte
Como a flutuar num lago
No meio do nevoeiro
Cheira ao mosto do que gosto
E o desejo vem primeiro
Que a Senhora do Monte
Na ermida bem no centro
Desta calma que me acalma
No êxtase para onde entro
Neste dia de ternura
Com a azeitona madura
Já penso no meu almoço
Mas junto ao poço não posso
E no Casal da Moscatoira
Perto da casa em ruínas
As pedras são todas minhas
Porque só eu as afago
E com elas a sonhar
Em ser portas e janelas
Vou até aos dióspiros
Caídos na erva moira
Um moinho jaz ferido
Olho e solto dois suspiros
Da paixão que ao peito trago
Mas de repente o sorriso
Pois já cá cheguei de novo
Ao meu casal preferido


Casal Novo

DSCF3545

Foto – Anabela Val-Flores

Coração

Quando a vontade
Se juntou
À fome de te encontrar
O olhar adoçou
A metade do pão
Que o coração
Ama sou

14002511_598270400353033_469355056_oComo não te conheço   Não te esqueço